Tem as marcas da vida na cara. A voz, com sotaque brasileiro, é arrastada e cansada. Tem 56 anos. Foi mãe aos 14 anos e avó aos 27. Tem 4 filhos (um em Portugal e os outros no Brasil) e 8 netos (2 cá - um com 5 dias - e os outros 6 do outro lado do Atlântico). Há cinco anos saiu do Brasil (Minas Gerais) e veio procurar uma vida melhor a Portugal. Começou como empregada num restaurante e só depois encontrou trabalho na área dela: manicure/pedicure. "Sabe quando vamos para outro país temos de nos sujeitar, porque a vida tem de avançar e temos de comer" - diz-me com um ar cansado de quem ainda vai enfrentar mais duas horas de trabalho depois das oito já passadas. "Para o ano regresso à minha terra" e aqui a voz fica mais aliviada e esboça um sorriso. Eu pergunto: "Mas ainda vai trabalhar? Já tem trabalho na sua terra?" e a resposta é pronta "Já tenho lá um cabeleireiro. A minha filha esta a tomar conta e vou enviá-la para locais de formação para ele aperfeiçoar as técnicas. Tenho pena de deixar cá os meus netos, mas a minha nora quer ir para lá também. Pode ser que um dia..."
"Doras" é o que não falta por este Portugal, mas nem todas conseguem regressar com um final mais animador e feliz. Esta Dora vai conseguir. No final ainda me confessou que tem medo de não durar até ao proximo Julho e, claro, só lhe consegui dar um voto de esperança e dizer "ainda é nova". E é, sem dúvida nenhuma, mas o futuro nem sempre está nas nossas mãos.
Simpatizei com a Dora e espero que tudo lhe corra bem.
Saudações virtuais